11 da manhã: acordo com ela me beijando e se insinuando, mal tenho tempo de entender o que está acontecendo e seus lábios já estão nos meus. Parece que vai ser um bom dia.
Meio dia: o sexo foi incrível, poucas vezes a vi tão quente. Enquanto fico deitado, com as pernas moles, ela se gruda no meu corpo e respira pesado, parecendo ronronar. Ela fica vários minutos me fazendo carinho, enquanto reflito se devo voltar a dormir ou levantar. Num ímpeto ela dá um pulo para fora da cama, e pela energia que parece irradiar de seu corpo tenho a nítida impressão que a qualquer momento ela pode sair dando piruetas pra todo lado. Ao invés disso ela vai a cozinha e me traz um copo de coca e um cigarro, o café da manhã dos campeões, e me enche de beijos e se aperta contra meu corpo, quase dói.
13 horas: ela se cansa de me ver rolar de um lado a outro da cama e me puxa pelo braço. Faço grunhidos de protesto enquanto coloco uma bermuda e os chinelos, e rumamos a praia. O dia está bem ruinzinho, mas ela está expurgando vida demais para um pequeno apartamento.
14: depois de ficarmos abraçados na praia, vendo as ondas quebrarem, finalmente me sinto desperto e descansado. Falamos sobre muitas coisas, todas elas agradáveis, e ficamos namorando como um desses casais melosos que se chamam de tchutchuco e tchutchuca e essas coisas impublicáveis, e digo para irmos almoçar na casa dos meus pais. Sua face muda, mas parece que o incomodo de ter que argumentar contra é maior que ir encontrar os sogros. Não que ela não goste deles, ao contrário. Mas voltando ao apartamento ela deixa escapar que na mala que fez não havia roupa apropriada, e que eu sei que ela não gosta de não ser avisada de meus planos. Rio e faço pouco caso, digo que ela está ótima e que não há com o que se preocupar.
17: o almoço foi uma delícia, macarrão com tinta de polvo e molho de champignon. Faço a piada machista que, mal acostumado com uma mãe que cozinha muito bem, é bom que ela comece a praticar. Ela sorri de maneira política, e por um centésimo de segundo posso ver em seu rosto uma fúria que escapa, mas o suficiente para eu parar com as gracinhas. Ficamos mais um tempo ali, fazendo sala, até que ela insiste para irmos trabalhar em um projeto que ela queria minha opinião.
19: passo as últimas horas trocando o trinco da porta de entrada da casa por um do quarto, concluo o trabalho e me sinto um macho primitivo que arruma, que se suja e faz acontecer. Neste espírito abro uma cerveja e me deito no sofá, e noto que ela está na frente do laptop com uma cara aborrecida. Pergunto o que ela está fazendo, e ela fala que trabalhando no projeto. Eu me levando pra dar uma olhada, e ela fecha o computador e diz que não quer minha opinião. Começa um longo esporro sobre ela querer que eu queira ajuda-la, e fica cada vez mais alterada.
22: ela está chorando já a 3 horas, isso tudo sem dizer mais nenhuma palavra. Eu fico esse tempo todo consolando-a, pensando que deve ser mais que o eporro de antes. Não sei se fiz algo a mais de errado, se ela está mal no trabalho, se brigou com os pais ou tudo isso.
22:15: finalmente ela fala algo, depois de muito eu insistir sobre o que tinha levado a tamanho derramamento de lágrimas, e suas palavras saem num tom sinistro: “não sei nem por onde começar”.
Lapso de tempo indefinido: ela parece estar no maior monólogo do mundo, e vejo que minha dúvida foi sanada, era realmente tudo junto, com o especial tempero de umas várias coisas erradas que fiz e nem me lembrava. Tenho que aturar a frase “E O PIOR, NEM SABE O QUE FEZ DE ERRADO!” Enquanto minha mente esta acelerada, com a vontade de berrar de volta tudo que eu acho de hipocrisia nela, todo o desgaste que sinto de suas neuroses, seus problemas, suas culpas infundadas e tudo isso que as mulheres carregam consigo, uma voz serena, talvez a junção de todos meus antepassados homens, de tempos longínquos em que isto nem tinha nome ainda, me sussurram no ouvido: calma rapaz, ela está de TPM.
ainda indefinido: ela parou de berrar, rosnar e me dar tapas no corpo todo, e agora está no sofá em posição fetal chorando. Não tenho coragem de chegar perto dela nem de fazer muito contado visual, ouvi tanto grito que sinto que até emagreci, tamanho esforço pra aturar calado. Respiro fundo e vou buscar um alfajor, dizem que doces são bons nessas horas, deixo perto e vou saindo lentamente, sem lhe virar as costas. Minha cautela foi fundada, vendo o chocolate e um cinzeiro sendo lançado em minha direção consigo desviar sem me sujar. Fico mais um tempo parado, sem saber o que fazer, e muitos minutos se passam, até que resolvo usar uma tática arriscada, e falo pra ela: calma que a tua TPM já deve estar passando. Ela se vira e me lança um olhar homicída, e quando ela já esta com a face totalmente transtornada de raiva, eu engulo a seco e fecho os olhos, e no escuro de minhas pálpebras, esperando o pior, escuto risos. Abro o olho e ela continua chorando, mas agora rindo e de braços abertos, num convite que acho mais válido aceitar.
02:30 : ela passa o resto do dia se desculpando e me fazendo carinhos, até que dorme, chorando ainda. A coloco na cama e vou arrumar a casa revirada de raiva, e só consigo pensar: sobrevivi.